décimo sexto: memória descritiva #3

The purpose of visualization is insight, not pictures. – Ben Shneiderman

A terceira e última proposta de trabalho da unidade curricular de Design e Comunicação Visual tem como tema a infografia. Através da execução de uma, integrada num contexto editorial específico, pretendia-se “compreender o conceito de imagem enquanto elemento e linguagem de comunicação visual” [1], assim como compreender quais são os elementos infográficos e desenvolver a capacidade de apresentar a informação visualmente. Também se pretendia aprender “o processo de construção de uma infografia”. [1]

Base teórica

Segundo Mark Smiciklas, “an infographic is defined as a visualization of data or ideas that tries to convey complex information to an audience in a manner that can be quickly consumed and easily understood.” [2]

Esta visualização de informação ou de ideias, tal como Smiciklas explica, é explorada por Alberto Cairo: “Somos animales visuales; eso influye incluso en la forma en que nos expresamos. Explique alguna idea compleja a un angloparlante y, en el momento en que la comprenda, lo oirá exclamar con una expresión de alivio y alegría en el rostro: I see! (“Ya veo”; en español también funciona). En nuestro interior, ver y entender son procesos entreverados y casi indistinguibles.” [3]  Deste modo, a infografia relevela-se uma linguagem vantajosa, por explorar o universo visual e apresentar informações de forma mais apelativa, mas também mais funcional.

Através da pesquisa efetuada, foi possível compreender que esta linguagem tem tido um papel importante na aquisição de novos e mais apropriados conteúdos para o cibermeio. Tal como Longhi cita na sua tese, apropriando-se das palavras de outro autor, “para Ramón Salaverría (2007), a infografia é a área onde mais se detecta a evolução rumo a novas formas de comunicação jornalística na internet. Para ele, a convergência de meios abriu novas possibilidades para a linguagem jornalística. A internet pressupõe um avanço significativo na integração dos códigos comunicativos e a infografia digital tem explorado «formas jornalísticas revolucionárias, que aproveitam cada vez mais as potencialidades do suporte digital.»” [4] Deste modo, a infografia tem conquistado cada vez mais espaço no ciberjornalismo, apesar de já ser parte integrante do jornalismo há algum tempo.

Quanto ao que deve ou não ser considerado infografia, Teixeira explica que esta “pressupõe a inter-relação indissolúvel entre texto (que vai além de uma simples legenda ou título) e imagem que deve ser mais que uma ilustração de valor exclusivamente estético. Podemos dizer, portanto, que este binómio imagem e texto, na infografia, exerce, por princípio, uma função explicativa e não apenas expositiva. O infográfico, enquanto discurso, deve ser capaz de passar uma informação de sentido completo, favorecendo a compreensão de algo e, neste sentido, nem imagem, nem texto deve se sobressair a ponto de tornar um ou outro indispensável.” [5] Assim, os elementos infográficos dividem-se em “fotografia, texto, ilustrações, mapas, gráficos ou qualquer outro recurso visual necessário para dar coerência entre todas as suas partes, com o objetivo de transmitir informações variadas sobre um determinado acontecimento, explicar um lugar, uma prática ou objeto.” [6]

Teixeira também cita De Pablos para explicitar que tipo elementos estruturais deve conter uma infografia: “Autores como De Pablos (1999) defendem que o infográfico deve conter os seguintes elementos: (1) título; (2) texto de entrada – uma espécie de lead com informações gerais; (3) indicação das fontes” [5]. Portanto, pretendi incluir estes pormenores na estruturação do meu projeto.

Em suma, é importante não nos esquecermos do objetivo de uma infografia, assim como as vantagens que esta apresenta face a outras linguagens, especialmente para o leitor contemporâneo – “The purpose of the information graphic is to provide a new way of understanding concepts, ideas and data through visual language. Because our brains are wired for pictures, infographics are understood differently than text alone. Often, a visual promotes a unique way of thinking about information because we’re able to perceive new relationships, improve our analysis and form different interpretations.” [7]

Fases do projeto

Visto que a infografia tinha de se inserir num contexto editorial específico, teríamos de escolher um dos cinco temas propostos pelos editores do JornalismoPortoNet (JPN) ou optar pela proposta do CIIMAR. Desta forma, decidi explorar o tema geral “Conflitos mundiais”, do JPN, e dentro dessa temática optar pelo Jihadismo, expondo-o com informação nova e para estudantes universitários. Assim, através da minha infografia, tentei articular dados em relação à localização destes grupos (em África, no Médio Oriente e na Ásia) e às rotas migratórias das populações humanas, ou seja, as rotas de fuga das mesmas. Também executei uma timeline que permitisse informar sobre a data de criação destas milícias, de modo a que se criasse uma melhor contextualização dos dados apresentados.

Escolhi este tema por ser do meu interesse e por me ter deparado, durante a pesquisa efetuada, com a inexistência de infografias que articulassem todas estas informações, permitindo tirar algumas conclusões. Apercebi-me também que a maioria das infografias se restringia apenas ao Estado Islâmico (o mais organizado dos grupos jihadistas), excluindo todos os outros, e que a existência destas em português era bastante escassa.

A primeira fase deste projeto foi, assim, a recolha da informação, visto que este é talvez o passo fulcral que dita o rumo que o projeto toma. Rapidamente me apercebi que a informação existente em relação à temática é bastante reduzida ou inexata, pelo facto de se tratarem de grupos secretos. Porém, a informação mais difícil de obter foi a que correspondia às rotas migratórias. Deste modo, foi desafiante conseguir recolher a informação necessária, mas não foi impossível.

As fontes nas quais me apoiei encontram-se referenciadas no rodapé da infografia. Entre estas, encontram-se a BBC e a Fox News [8], os exemplos mais representativos das fontes utilizadas. Desta forma, servi-me sobretudo de notícias e de gráficos efetuados por estes órgãos de comunicação para a recolha de dados, dada a credibilidade que estes têm. É importante mencionar que a maioria das informações recolhidas se encontrava em inglês, pelo que procedi à sua tradução.

Em função dos dados recolhidos, procedeu-se à elaboração técnica do projeto. A ferramenta que utilizei para a criação da infografia foi o programa Adobe Illustrator CS6.  Comecei por desenhar o mapa da região pretendida. Este foi um processo moroso, visto que tive de desenhar cada país, um por um. A imagem apresentada foi capturada durante a execução, visto que o mapa não se encontra completo (encontra-se em falta uma zona da Ásia).

Untitled1

De seguida, assinalei os grupos jihadistas distribuídos geograficamente nas áreas apresentadas. A cor verde foi posteriormente alterada para vermelho, visto que é uma cor muito mais representativa da temática – é a cor do sangue e está associada à guerra, à violência e ao poder. Quanto à cor dos mapas, o bege foi a selecionada, pois é uma cor clara, que contrastaria com o vermelho, e é também a cor da areia, do deserto, o que pode ser facilmente associado ao continente africano. Mais tarde, adicionei as legendas dos principais grupos extremistas islâmicos, em função da sua localização geográfica. Decidi que colocar a denominação dos grupos em cada um dos países mencionados seria mais eficaz do que colocar uma legenda na parte inferior do mapa, pois assim a apreensão da informação é mais automática (nesta imagem, estão em falta as legendas dos grupos jihadistas).

Untitled2

O mapa relativo às rotas de migração foi elaborado posteriormente, utilizando o modelo já apresentado. Decidi que as rotas seriam representadas por setas unidirecionais, cuja direção indicasse quais os países para os quais se dá o êxodo das populações. Durante a pesquisa efetuada, foi possível observar que as populações procuram fugir dos países nos quais se encontram grupos jihadistas. Contrariamente ao esperado, não existem quaisquer rotas  de fuga assinaladas na Síria e no Iraque, onde se encontra o ISIS. Tal pode suceder-se devido aos entraves colocados pelo grupo extremista e pela situação política da Síria, no que toca ao abandono destes países, ou simplesmente devido à falta de informação.

Finalmente, elaborei uma cronologia para contextualizar a criação destes grupos. Esta apresenta-se dividida em décadas, para que se tenha uma percepção generalizada, e dentro de cada década encontra-se o ano de formação de cada um dos grupos. Esta timeline também passou por fases intermédias, mas foi alterada para que houvesse uma maior uniformização das cores presentes na infografia.

Captura de ecrã 2015-06-21, às 19.06.11

As fontes utilizadas foram Helvetica, Helvetica Neue e Gill Sans. Optei pelas duas primeiras devido à clareza que estas conferem ao texto, não sendo serifadas, e pela simplicidade e funcionalidade que apresentam. Considero estes essenciais num trabalho deste cariz: informativo e jornalístico. Já o título apresenta-se em Gill Sans, em small caps, para que se diferenciasse do restante corpo do texto. Esta tipografia é serifada, mas é bastante percetível, encontrando-se no limite entre o tradicional e o moderno.

Elementos e estrutura utilizados

Como já foi possível observar, os elementos infográficos utilizados foram o texto, o mapa e a timeline. A utilização simultânea destes permite uma maior articulação da informação, assim como lhe confere mais solidez, dinamismo e contextualização.

Relativamente à estrutura adotada, esta foi a supracitada, proposta por De Pablos: título, lead e indicação das fontes, para além de, obviamente, a informação que se pretendia transmitir.

  •  Título e lead

Primeiramente, o título e o lead surgem no topo da infografia, contextualizando a temática que se aborda de seguida. Escolhi as cores vermelho – pelos motivos apresentados – e o branco, para que contrastasse e a leitura fosse facilitada. O lead encontra-se sobre o fundo branco da infografia, para que não se gerasse maior “confusão” na faixa vermelha, que tem a finalidade de destacar apenas o título. Também surge o desenho de uma arma, no canto superior esquerdo, para ilustrar o tema e criar uma maior associação entre as informações e os grupos islâmicos, para o leitor.

  • Informação

Seguidamente, apresentei todos os elementos infográficos mencionados. Estes encontram-se separados por linhas de pontos vermelhos, para que houvesse uma separação das informações, mas não muito abrupta. Desta forma, o fundo é uniforme nesta área, apresentando a cor branca. Escolhi esta cor para que os mapas sobressaíssem, visto que são a informação fulcral. Como estes incluem bastantes pormenores, considero que qualquer outra cor no fundo ia causar ruído visual, impedindo a sua leitura.

  • Fontes

Por fim, surgem as fontes em nota de rodapé, com a cor cinzento, para que não fossem realçadas. Esta cor foi também utilizada nas legendas do primeiro mapa, o que contribui para uma maior homogeneidade.

Resultado final

este

Conclusões

Este projeto foi, de todos, o mais complexo, mas também o mais desafiante, sobretudo no que toca à recolha de informação. Posso afirmar que esta proposta me obrigou a utilizar conhecimentos adquiridos anteriormente, desde os elementos básicos da comunicação visual à tipografia, de forma a elaborar uma infografia de conteúdo jornalístico. Apesar de ser a proposta que menos apelou à criatividade, foi a mais útil para a minha formação como futura profissional da comunicação, sobretudo no que toca a toda a parte informativa, que foi privilegiada face à estética.

Considero também que a ajuda dos editores do JPN e do professor foram importantes para a escolha do rumo do projeto e para o tratamento da informação, partes essenciais de uma infografia.

Desta forma, considero que cumpri os principais objetivos deste trabalho. Encontro-me satisfeita com o resultado final e com o que retiro da execução desta proposta de trabalho: capacidades e técnicas que serão aproveitadas futuramente.


Referências

1. Enunciado da Proposta de Trabalho 3, fornecido pelo professor

2. SMICIKLAS, Mark / “The Power of Infographics: Using pictures to communicate and connect with your audiences” / Que Publishing, 2012

3. CAIRO, Alberto / “El arte funcional” / Alamut Ediciones, 2011

4. LONGHI, Raquel / “Infografia online: narrativa intermídia” / 2009

5. TEIXEIRA, Tattiana / “A presença da infografia no jornalismo brasileiro – proposta de tipologia e classificação como género jornalístico a partir de um estudo de caso” / 2007

6. IPOLITO, Danilo Bueno / “Proposta de inclusão da disciplina Infografia no currículo de Jornalismo” / Universidade de São Paulo, 2010

7. in http://understandinggraphics.com/design/themes-for-a-good-infographic/

8. in http://www.foxnews.com/world/2014/07/10/world-worst-jihadist-groups-across-globe-vie-for-terror-spotlight/; http://www.bbc.com/news/world-middle-east-27930414

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