nono: memória descritiva #2

Tipografia não é mais do que a arte de descobrir, em cada caso concreto, aquilo de que a nossa vista gosta e de apresentar as informações de modo tão apetitoso que a vista não lhes possa resistir. – Otl Aicher

A Proposta de Trabalho II, da unidade curricular de Design e Comunicação Visual, tem como tema a tipografia. Esta proposta teve como objetivo a compreensão da letra como “matéria visual de representação fónica e como grafismo autónomo da sua função textual” [1], entendendo a relação estreita que pode existir entre os universos tipográfico e infográfico. Desta forma, procedeu-se à criação de uma infografia tipográfica de um texto, ao critério do aluno, recorrendo unicamente a elementos tipográficos na composição da mesma.

Base teórica

Segundo Paulo Heitlinger, “a tipografia não é apenas um gozo e um prazer intelectual e estético; é sempre uma atividade social, de comunicação.” [2] Estamos rodeados por ela – nos jornais, revistas, panfletos, cartazes, sinalizações, rótulos. Tal como Bruce Willen e Nolen Strals afirmaram: “letters are the throbbing heart of visual communication. Text is everywhere. It is a medium and a message. It is a noun and a verb.” [3] E a toda a hora, a tipografia comunica-nos mensagens para além do seu significado, mas atendendo também à estética e à expressividade dos seus caracteres tipográficos. Esta é de tal forma omnipresente que, na maioria das vezes, não a vemos consciente e objetivamente, mas a mensagem passada é a pretendida. Deste modo, a comunicação foi bem sucedida.

A cor tem um papel fundamental na comunicação, sendo determinante também no universo tipográfico. Esta “tem associações simbólicas em todas as sociedades através da sua aparência em contextos sazonais, políticos, ambientais e sexuais.“[4] Assim, também a cor será explorada nesta memória descritiva, visto que foi um fator determinante na realização desta infografia tipográfica.

O texto

Para a realização desta composição, escolhi o poema “Um Adeus Português”, da autoria de Alexandre O’Neill. Este foi o texto escolhido porque, como já explicitei anteriormente, considero-o possuidor de uma pureza raríssima, característica que aprecio em qualquer obra de arte. Contudo, admito que foi uma tarefa desafiante, pois tive de representar algo tão abstrato, como os sentimentos abordados, através da tipografia.

Conceito

O conceito subjacente a esta infografia tipográfica prendeu-se na transmissão das sensações que o poema me transmite. Para isso, comecei por elaborar um quadro síntese que me auxiliasse neste parâmetro.

Captura de ecrã 2015-04-24, às 00.01.36

Apesar de já ter publicado anteriormente a interpretação do poeta sobre o seu próprio poema, não me quis cingir apenas ao testemunho deste, mas sim também à minha própria interpretação. Deste modo, considero este brainstorming fundamental.

Após a elaboração do quadro, comecei por desenvolver a minha primeira ideia no programa Adobe Illustrator CS6. Pretendi criar através do próprio texto – o poema – a palavra “Adeus”, a principal temática. Idealizei que começaria por utilizar uma maior densidade de letras no primeiro caracter, o “A”, diminuindo progressivamente a quantidade das mesmas, sendo que o “S” seria o que conteria uma menor densidade de texto. Desta forma, a palavra desvaneceria, transmitindo o “Adeus” pretendido. Aliaria também um dégradé na cor da composição, no sentido da diminuição da densidade textual. Contudo, este último passo não foi realizado visto que, após criar a palavra “Adeus”, me apercebi que não conseguiria o resultado pretendido e que não me auxiliaria a atingir o objetivo estabelecido pela proposta de trabalho. Decidi, portanto, alterar por completo o rumo do meu projeto. Todavia, considero esta primeira interpretação importante para a evolução do meu trabalho.

Seguidamente, explorei uma ideia totalmente diferente. Estabeleci a repetição do poema no fundo da composição, com a fonte OCR A Std. Esta é uma fonte de traço simples, mas grosso, que possui um espaçamento simples, com largura fixa. Escolhi-a, pois assemelha-se à “escrita à máquina”, característica da máquina dactilográfica, o que nos remete para a monotonia do quotidiano e do mundo moderno: automático, mecânico, pragmático e funcional. Tal como é referido no poema, o dia é “burocrático” e vigora um “modo funcionário de viver”. O sujeito poético encontra-se preso numa “roda” em que “apodrecemos”, com uma “pata ensanguentada que vacila / quase medita / e avança mugindo pelo túnel / de uma velha dor”. Os dias são, portanto, monocórdicos e repletos de um desespero lânguido que se estende ao longo destes. Foram estas as razões que me levaram a preencher o fundo da composição com a fonte OCR A Std, reforçando a tristeza e a monotonia do dia-a-dia que se repete, repetindo também o poema vezes sem conta.

Quanto à cor do texto de fundo, estabeleci que este teria de mudar de tom progressivamente, começando em azul – cor que se “associa com a depressão, frieza, desapego e apatia” [4], que caracterizam os dias do sujeito poético – e terminando no preto – que “está associado à noite e à morte” [4], invocando a despedida, que é a principal temática do poema.

No seio da composição, cujo background já foi descrito e explicitado, desenhei uma faixa branca, sobrepondo-se ao fundo repetitivo. Esta encontra-se centrada e ocupa toda a extensão da infografia tipográfica, contendo também elementos deste cariz. Tal como a faixa “corta” o fundo, a última estrofe, texto que se encontra nesta faixa, “corta” o ritmo do poema. Enquanto que as estrofes anteriores descrevem o mundo impuro e “burocrático” em que o sujeito poético se encontra – que não é digno do “tu” a quem o poema se dirige – a última estrofe é a despedida inocente e pura deste mesmo “tu” (“Nesta curva tão terna e lancinante / que vai ser que já é o teu desaparecimento / digo-te adeus / e como um adolescente / tropeço de ternura / por ti.”) Desta forma, utilizei a fonte Adobe Garamond Pro, “a verdadeira letra romana humanista de origem francesa.” [2] Paulo Heitlinger acredita que Garamond, uma fonte serifada que foi inventada por Claude Garamond no século XVI, é o “perfeito equilíbrio entre elegância e funcionalidade” [2], sofrendo diversas alterações ao longo dos séculos. A Adobe Garamond Pro é uma reedição mais moderna e completa, em formato OpenType. Escolhi-a por ser bastante clássica, elegante e por parecer orgânica e sem adornos. Desta forma, é uma fonte clara, que remete para a simplicidade e para a inocência dos sentimentos que o sujeito poético expressa na última estrofe do poema, o ponto de viragem. Como esta não possui um grande dinamismo e é contida, considerei que se pudesse facilmente associar à contenção sentimental e à pureza dos sentimentos que o eu poético nutre pelo “tu”.

Nesta última estrofe, é referida uma “curva tão terna e lancinante”, que tentei ilustrar figurativamente. Escrevi, portanto, o texto da estrofe final sob a forma de duas curvas que se entrecruzam. Atribuindo uma cor mais escura e uma posição inicial superior a uma delas, o leitor consegue ler as duas curvas pela ordem correta. Os caracteres da segunda curva encontram-se a azul, cor que serve o propósito referido anteriormente. Posteriormente, decidi que nada mais havia a acrescentar a esta parte da composição, visto que a clareza e a simplicidade são fatores determinantes.

Fases intermédias do projeto

1.dcvletras

2.tentativa2dcv

Esta foi uma fase intermédia entre a primeira versão e a final, sendo que foi uma tentativa que não foi explorada nem aperfeiçoada, tratando-se de uma desagradável “salada de fontes”.  Contudo, decidi incluí-la aqui também.

Resultado final

trabalho2dcv

Conclusões

Refletindo sobre o resultado final, concluo que estou satisfeita com o mesmo, pois sinto que aprendi mais sobre a tipografia, temática sobre a qual nunca me tinha debruçado anteriormente. Acima de tudo, compreendi que esta, a nível estético, também comunica – e muito.

Este trabalho contribuiu também para um aperfeiçoamento das minhas capacidades técnicas na utilização do Adobe Illustrator CS6, assim como contribuiu para um melhoramento das minhas capacidades de observação e atenção, através da recolha fotográfica.

Em suma, a realização deste trabalho foi fundamental para uma aspirante a profissional da comunicação, pois tal como Ellen Lupton afirmou: “mastering the art of arranging letters in space and time is essential knowledge for anyone who crafts communications for page or screen.” [3]


Referências bibliográficas

1. Enunciado da Proposta de Trabalho 2, fornecida pelo docente
2. HEITLINGER, Paulo / Tipografia: Origens, formas e uso das letras / Dinalivro, Lisboa, 2006
3. WILLEN, Bruce; STRALS, Nolen / Lettering & Type / Princeton Architectural Press / 2009
4. “A Cor e a Comunicação Visual”, documento fornecido pelo docente

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