sexto: memória descritiva #1

Neste semestre, temos a oportunidade de frequentar a unidade curricular de Design e Comunicação Visual, que nos dá a oportunidade de desenvolvermos a nossa criatividade em termos visuais. Com a concretização da Proposta de Trabalho I, é esperado que consigamos identificar e distinguir os elementos básicos da comunicação visual, compreender as técnicas subjacentes a esta proposta e utilizá-las, assim como aos elementos básicos da comunicação visual, como meios de expressão para a criação de uma composição. Nesta proposta, teríamos de escolher uma música e interpretá-la visualmente, elaborando uma composição com duas abordagens. Esta deveria ser adaptável a um contorno quadrado e a um contorno circular. Uma recolha fotográfica seria também realizada no âmbito deste trabalho, quer para pesquisa, quer para a concretização deste.

Base teórica

Na realização deste projeto, foi essencial avaliar a realidade não como um todo, mas sim nas suas partes, desconstruindo-a. Segundo o Princípio Mínimo de Kohler, o ser humano possui uma natureza dinâmica de percepção e a tendência inata para alcançar de forma consistente, simples, com o mínimo de recursos cerebrais, o objeto que o rodeia. Assim, este possui áreas especializadas no seu cérebro com a função específica de reconhecer os diferentes elementos básicos que, através da memória, são, então, percepcionados como um todo. A nossa visão assenta, desta forma, em alguns princípios organizativos muito importantes – os Princípios da Gestalt – que se baseiam na proximidade (quando percepcionamos um conjunto de objetos, temos tendência a agrupar os objetos mais próximos uns dos outros1), semelhança (a tendência de agruparmos os objetos semelhantes entre si, quando os percecionamos), fecho (a tendência que temos em completar um objeto incompleto, quando no ato de perceção), continuidade (quando agrupamos os elementos que seguem um padrão), figura-fundo (tendência em atribuir a uns elementos um papel proeminente e a outros um papel de background, de fundo, quando estamos a percepcionar um campo visual) e pregnância (tendência a percepcionar melhor as formas simples ou simétricas, de forma a que estas sejam mais compreensíveis e memorizáveis) dos elementos. Portanto, foi essencial adotar a posição de Donis A. Dondis em A sintaxe da linguagem visual: “São muitos os pontos de vista a partir dos quais podemos analisar qualquer obra visual; um dos mais reveladores é decompô-la nos seus elementos constitutivos, para melhor compreendermos o todo.” Estes elementos constitutivos que Donis A. Dondis refere são os elementos básicos da comunicação visual: o ponto, a linha, a forma, a perspetiva, o tom, a cor, a textura, a escala, a profundidade e o movimento.          

 Elementos básicos

Segundo a autora mencionada, os elementos básicos visuais são “a substância básica daquilo que vemos e o seu número é reduzido: o ponto, a linha, a forma, a direção, o tom, a cor, a textura, a dimensão, a escala e o movimento. Por poucos que sejam, são a matéria-prima de toda informação visual em termos de opções e combinações seletivas. A estrutura da obra visual é a força que determina quais elementos visuais estão presentes, e com qual ênfase essa presença ocorre.”2 Desta forma, segundo Donis A. Dondis:

  • O ponto é “a unidade de comunicação visual mais simples e irredutívelmente mínima”, sendo que “qualquer ponto tem grande poder de atração visual sobre o olho, exista ele naturalmente ou tenha sido colocado pelo homem em resposta a um objetivo qualquer.” Quando existe mais do que um, estes ligam-se e dirigem o olhar ou criam uma imagem mental. Estes quando em grande numero e justapostos, “criam a ilusão de tom ou de cor”.
  • “Quando os pontos estão tão próximos entre si que se torna impossível identificá-los individualmente, aumenta a sensação de direção” e surge a linha. Esta pode ser “rigorosa e técnica”, adquirindo um propósito específico, apesar da sua flexibilidade; também pode ser extremamente dinâmica, mas nunca estática, pois possui “uma enorme energia”. Esta é também “um instrumento nos sistemas de notação” servindo, por exemplo, a escrita.
  • “A linha descreve uma forma” articulando a sua complexidade. O quadrado, o círculo, e o triângulo constituem as formas básicas, sendo que cada uma apresenta características próprias. Contudo, todas são “planas e simples” e “podem ser facilmente descritas e construídas, tanto visual quanto verbalmente.”
  • Estas formas básicas apresentam em si “três direções visuais básicas e significativas: o quadrado, a horizontal e a vertical; o triângulo, a diagonal; o círculo, a curva”. É importante mencionar que as forças direcionais são essenciais para a intenção compositiva, auxiliando à criação de mensagens visuais.
  • “Enquanto o tom está associado a questões de sobrevivência, sendo portanto essencial para o organismo humano, a cor tem maiores afinidades com as emoções”, sendo que esta está impregnada de informações associadas e contribui para uma das mais “penetrantes experiências visuais” que todos vivenciamos. Assim, esta não apresenta uma função meramente estética. As suas três dimensões são a luminosidade, a matiz e a saturação.
  • Por sua vez, a textura é “o elemento visual que com frequência serve de substituto para as qualidades de outro sentido, o tato. Na verdade, porém, podemos apreciar e reconhecer a textura tanto através do tato quanto da visão, ou ainda mediante uma combinação de ambos”. Esta pode não apresentar qualidades tácteis, mas sim óticas, sendo que a maior parte da nossa experiência com texturas é desta natureza.
  • A escala é o processo pelo qual os elementos visuais são capazes de se “modificar e de se definir uns aos outros”. No campo visual, esta define-se como a relação de dimensões entre formas.
  • “A representação da dimensão em formatos visuais bidimensionais também depende da ilusão. A dimensão existe no mundo real. Não só podemos senti-la, mas também vê-la, com o auxílio da nossa visão estereóptica e binocular.” A sua principal ferramenta é a perspetiva, pois é através dela que produz a realidade, dando profundidade ao desenho.
  • Por último, podemos considerar o movimento como “uma das forças visuais mais dominantes da experiência humana.” Este deriva da nossa experiência quando se projeta na informação visual – “A sugestão de movimento nas manifestações visuais estáticas é mais difícil de conseguir sem que ao mesmo tempo se distorça a realidade, mas está implícita em tudo aquilo que vemos, e deriva de nossa experiência completa de movimento na vida.”

Assim, é possível concluir que todos os elementos apresentados são os “ingredientes básicos com os quais contamos para o desenvolvimento da comunicação visual”. Estes permitem uma fácil e direta apreensão de mensagens, transmitindo um “significado universal”.

A música

Através das noções aprendidas em aula e do apoio de alguma bibliografia mencionada ao longo desta Memória Descritiva e das várias recolhas fotográficas destinadas a “desconstruir” a realidade em elementos básicos (publicadas nesta página), foi possível começar a desenvolver a composição visual, tendo sempre em mente “All I Need” de Radiohead.

Esta foi a música escolhida para o meu projeto. Pretendi transmitir a solidão do eu lírico da canção, assim como a vergonha e a frustração que este sente por ser an animal / trapped in your parked car, all the days / that you choose to ignore, a moth / who just wants to share your light e just an insect/ trying to get out of the night. A minha composição pretendia capturar toda esta melancolia e todo este sentimento de pequenez e insignificância que o sujeito sente (you are all I need (…) I’m in the middle of your picture / lying in the leaves). A melodia da música não poderia transmitir melhor todas estas emoções, visto que se apresenta calma, mas também melancólica, estabelecendo um ambiente de apatia, dor e solidão, que acompanha o poema.

Composições visuais (resultado final)

finalfinalConceito

No seguimento da interpretação que escolhi, a composição visual prende-se na captura das sensações que a melodia e a letra transmitem. Decidi expressar essa mesma mensagem nos dois contornos pretendidos – o quadrado e o círculo.

Os elementos básicos da comunicação visual encontram-se distribuídos nas duas composições. Na de contorno quadrado, a linha é de importância extrema, pois está presente tanto no padrão de fundo, como na linha de contorno desenhada. Esta apesar de ter sido obtida através de um programa de desenho vetorial – o Adobe Illustrator CS6 – é de contorno e expressa alguma delicadeza. Através dela, tencionei contornar uma figura humana deitada e fragilizada, mas sem ser demasiado figurativa. A forma do contorno, à primeira vista, não consegue ser identificada. Assim, quando nos deparamos com a composição visual, não vislumbramos imediatamente a figura, mas sim uma linha delicada e orgânica. Matisse, artista francês, foi uma das minhas inspirações neste campo, devido às linhas simples e repletas de delicadeza presentes nos seus trabalhos. Esta encontra-se estrategicamente posicionada na parte inferior direita da composição, pois, assim, não é alvo de um óbvio destaque. Ao apresentar-se no canto inferior direito da composição, a silhueta indica a submissão e a impotência pretendidas.

A textura que serve de fundo à composição está aumentada o suficiente para a servir como padrão/estrutura, pois “ao perceber uma superfície uniforme, mas caracterizada material ou graficamente, o olho poderá considerá-la textura, ao passo que, ao perceber uma textura com módulos maiores, passíveis de ser reconhecidos como figuras divisíveis em submódulos, poderá considerá-la estrutura. Considerando-se então a dimensão temporal das formas, é possível pensar na transformação de textura em estrutura, ou mesmo conceber módulos com elementos internos particulares tais que, acumulados em estruturas, possam ser reduzidos a texturas de características especiais.”Desta forma, o padrão constituído por linhas orgânicas, distribuídas aleatoriamente pela superfície, aliado a vários tons de bege e branco, transmite a ideia de quietude, mas simultaneamente solidão e tristeza, pois o bege é uma cor que transmite calma, passividade e estática, estando associada à melancolia. As linhas que se sobrepõem às manchas de cor bege aparentam ser arranhões, na parte superior da composição, o que pode transmitir a frustração do eu poético da música. O padrão remete para uma superfície pétrea, o que conduz à frieza da qual o eu lírico é alvo e que lhe causa tanto desconforto. Este foi obtido através de uma das recolhas fotográficas efetuadas, sendo parte de uma parede de mármore.

A composição de contorno circular, por sua vez, apresenta elementos básicos, como a textura – constituída por pontos, que se organizam em manchas de diversos tons de cinzento e bege – e a linha, que aqui se encontra a branco. Esta composição apresentou diversas fases, que serão apresentadas posteriormente. Mais uma vez, pretendi transparecer todos os sentimentos e emoções enunciados, sendo que a cor cinzenta sugere desânimo e monotonia, emoções que contribuem para a transmissão da mensagem visual. Mais uma vez, a textura que preenche o fundo é extremamente estática e pertence a uma das fotografias tiradas numa das recolhas fotográficas. Posteriormente, esta foi editada no Adobe Photoshop CS6, para harmonizar as cores e diminuir a sua opacidade, visto que isso contribuiria para o resultado pretendido.

A forma da ténue linha branca, mais uma vez, transparece a delicadeza e a simplicidade. Contudo, nesta composição decidi interpretar a canção de uma forma diferente, desenhando duas silhuetas, uma delas representando o eu poético e outra, diminuída, o seu eu interior, ou seja, todos os seus sentimentos de inferioridade. Ambas as silhuetas se encontram na periferia, na metade direita do círculo e na parte inferior, para, mais uma vez, representarem a submissão e a dor expressas na música. Por uma questão de harmonia e organização espacial, considerei que a posição vertical se adequava melhor ao contorno circular, ficando esteticamente mais apelativo. Também alterei a cor da linha, pois, ao utilizar a cor branca, camuflei ainda mais o indivíduo, representando a sua impotência, e diminuí o contraste, fundindo a silhueta com o resto.

Desta forma, considero-me satisfeita com o resultado final, pois consegui aprender mais sobre como os elementos básicos da comunicação visual influenciam decisivamente a mensagem transmitida, aprendendo a expressar-me não exclusivamente por figuras e formas.

Fases do projeto

Quando me deparei com esta proposta, elaborei um quadro semelhante a este, para me auxiliar no brainstorming necessário.

tabela

O projeto em si passou por diversas fases de desenvolvimento. No início do mesmo, não tendo compreendido na totalidade o objetivo da proposta de trabalho, realizei uma composição excessivamente figurativa, não me expressando pelos elementos básicos. Contudo, os sentimentos pretendidos já se encontravam minimamente expressos.

Como desenhei a silhueta:

pessoa-3

Primeira fase da composição de contorno quadrado:

quadrado0high

A composição de contorno circular também passou por várias fases. A textura de fundo foi alterada, pois a anterior – também encontrada em recolhas fotográficas – expressava o desmoronamento do indivíduo, mas também alguma raiva e dinamismo, devido ao contraste mais violento de cores e a linhas carregadas e angulosas, o que não era pretendido. As linhas das silhuetas ficavam também menos visíveis, resultando num ruído de fundo excessivo. Assim, penso que as versões anteriores não comunicavam a mensagem pretendida, sendo que alterei esta composição para comunicar melhor.

Primeira fase da composição de contorno circular:

Screen Shot 2015-03-18 at 17.26.25

Segunda fase da composição de contorno circular:

circulo

Terceira fase da composição de contorno circular (com mais opacidade do que a final):

circulo2escuro

Técnicas de comunicação visual usadas

“As técnicas de comunicação visual auxiliam no controlo dos objetivos informacionais, na transmissão da mensagem objetivada e influenciam a compreensão do usuário na interpretação e percepção do conteúdo desejado.”2 Devido à sua importância, as técnicas de comunicação visual utilizadas foram:

  • A simplicidade, presente de forma mais evidente nas linhas desenhadas e na composição de contorno quadrado, para facilitar a interpretação do significado da música. Sendo uma música com um ritmo bastante calmo e regular, a simplicidade nas linhas seria essencial.
  • A complexidade, que se encontra nos padrões e texturas que constituem o fundo das composições, remetendo para a complexidade dos sentimentos e para a frustração descrita.
  • A fragmentação inerente à separação dos elementos da composição (textura e linhas desenhadas).
  • A espontaneidade existente nas linhas do padrão usado na composição de contorno quadrado, pois este encontra-se na natureza e as linhas são, assim, orgânicas e espontâneas.
  • A subtileza, encontrada no resultado final de ambas as composições, expressa bastante delicadeza, especialmente devido às linhas desenhadas, fator indispensável.
  • O enfâse presente no realce que o elemento – feito por linhas – apresenta em relação ao fundo, sendo alvo de algum destaque.
  • A planura, pelo facto de não haver qualquer profundidade no padrão de fundo ou nas figuras apresentadas, o que realça a quietude e a apatia.

Esta dupla abordagem na composição surgiu para diversos propósitos, sendo estes a auto-aprendizagem, a capacidade de desconstrução da realidade, o melhoramento da capacidade de observação e uma maior aproximação de programas como o Adobe Illustrator CS6. Desta forma, considero a realização desta proposta de trabalho bastante proveitosa.


Referências

  1. SOEGAARD, Mads / Gestalt principles of form perception / https://www.interaction-design.org/encyclopedia/gestalt_principles_of_form_perception.html
  2. DONDIS, A. D. / La sintaxis de la imagem, Introducción al alfabeto visual / Ed. GG Diseño, Barcelona
  3. MUNARI, Bruno / Design e Comunicação Visual / Ed. 70, Lisboa, 1991
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